terça-feira, 31 de maio de 2011

Toda Mulher é meio Leila Diniz!

 
 
Já dizia Rita Lee em "Todas as Mulheres do Mundo": "Toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz, toda mulher se faz de coitada, toda mulher... é meio Leila Diniz !"
E tive o prazer de ler o texto do psicanalista Eduardo Mascarenhas sobre este ícone, que tanto admiro, resolvi compartilhá-lo:
 
"Até uns anos atrás, praticamente não existiam nem a sexualidade nem o amor. Pelo menos tal como os conhecemos hoje em dia. Havia sexo, sim, mas sexo reprodutor, sexo sem gozo nem amor. De um lado, homens precoces. De outro, mulheres assexuadas e, por eles, reprimidas.
Mocinhas, elas ainda eram sonhadoras e românticas. Depois, nem isso. Perdiam o viço e ficavam generalizadamente flácidas. Ao se tornarem esposas, amatronavam-se e não sonhavam mais.
Os homens tinham na vida duas coisas a fazer: ganhar dinheiro e tornar suas filhas e esposas seres sem sexo. Para tanto valia tudo.
As mulheres que se conformassem com esse destino recebiam o honroso título de moças de família ou mulheres de bem. As que se rebelassem deveriam ser difamadas. Eram chamadas ou de prostitutas ou de fêmeas possuídas por um obsceno furor: o furor uterino.
Os machões perpetravam sexo, assim, com três tipos de mulheres: a esposa frígida em casa; a ninfomaníaca (ou sua versão mirim - a galinha) nas garçonnières; e a meretriz nos rendez-vous.
Como conseqüência, existiam três tipos de sexo: o sexo família, o sexo profissional, o sexo adulterino.
Foi nesse sufocante panorama que emergiu Leila Diniz. Sozinha, emocionante, linda.As esquerdas eram caretas. Muita cabeça e pouco corpo. Revolucionárias na política, eram reacionárias nos costumes.
E o movimento hippie apenas ensaiava os seus primeiros passos e decididamente não chegara ao Brasil. O que já tinha se firmado por aqui eram os roqueiros dos anos 50 - a juventude transviada. Muita birita, muita corrida de carro, muito lampião quebrado, muito rock com chiclete mas, na hora de dormir, um beijinho na boca e cada qual para sua casa.
Leila, assim, é uma heroína solitária, uma precursora dos anos 70. Com dignidade, ama e faz amor. Engravida-se fora do casamento e expõe a beleza de seu ventre grávido pela primeira vez em nossas praias. Com graça e humor, rompe o preconceito de que mulher não diz palavrão.
A sociedade se assusta. A alegria de Leila deveria ser penalizada. Leila é agredida pelos conservadores. É julgada publicamente pela TV. E condenada. "O Pasquim" oferece suas páginas para a defesa da atriz. Sua entrevista, explode e ela se torna, de musa de Ipanema, um mito nacional.
E Leila está aí. Viva em cada mulher que diz não. Viva na alegria das mulheres que buscam a verdade."


"Só me arrependo das coisas que eu não fiz. Das coisas que fiz, não me arrependo nada."
                                                         - Leila Diniz

               (frase que se tornou antológica em sua entrevista para "O Pasquim").

Elas Desnudaram a Literatura


Na literatura, Anaïs Nin polemizou em sua época ao escrever obras permeadas de erotismo e idéias feministas baseadas em experiências pessoais. Foi amante de Henry Miller e autora do best-seller "Delta de Vênus", tornando-se a precursora de toda uma geração de escritoras que busca no sexo um novo "boom" literário. E atualmente algumas escritoras brasileiras, dotadas de ousadia e sensualidade, vem destacando-se nesse segmento.
Fernanda Young em "Efeito Urano" fala de adultério e homossexualidade: uma mulher que se perde na ingenuidade e excitação ao conhecer outra, formando-se assim, um triângulo amoroso de duas mulheres e um homem.
Sabina Anzuaegui, escritora paranaense, apresenta o sexo como um componente da vida, sem o qual as relações humanas estariam truncadas em seu romance "Calcinha no Varal".
Ana Ferreira narra histórias em primeira pessoa, mas que não são necessariamente dela. Trabalha com fantasias sexuais e coisas que muitas mulheres gostariam de dizer e muitos homens sonham em ouvir, em "Amadora".E com pitadas menos ficcionais, Mariana Brasil relata o dia-a-dia das prostitutas brasileiras que partem para fazer o eixo Itália-Suíça em "O Manuscrito de Sônia", história que inspirou Paulo Coelho a escrever seu sucesso "Onze Minutos".
Kika Salvi apresenta aos leitores um pouco de sua intimidade em "Kika, A Estranha", onde há sexo frustrado, falta de dinheiro, festas, amigos loucos e por aí vai.
A ex-garota de programa Raquel Pacheco, conhecida por Bruna Surfistinha baseada em trechos de diários, escreveu "O Doce Veneno do Escorpião - o Diário de uma Garota de Programa", que inclusive, gerou um filme recorde de bilheterias, estrelado por Deborah Secco no papel principal.




"Não se é escritor por ter escolhido dizer certas coisas, mas sim pela forma como as dizemos." 

                                        - Jean-Paul Sartre

domingo, 8 de maio de 2011

Sexo Frágil?



Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Homens seguem a razão, Mulheres seguem a emoção. Homens devem demonstrar força, Mulheres devem demonstrar ternura. Estas   afirmações que nos cercam e soam como verdades absolutas, na realidade não passam de mitos, buscando de uma maneira sutil a desvalorização do "feminino", que é sempre o "menos"... em relação ao "masculino".
Homens e mulheres tem suas diferenças - SIM! Mas essa ditadura, por exemplo, de que "homem não pode demonstrar suas fraquezas nem o menor sinal de sensibilidade" é uma visão preconceituosa impedindo que as qualidades "femininas" ou "masculinas" sejam atributos do ser humano em sua globalidade.
A  distinção feita entre o que pertence ao universo feminino e ao masculino deve-se a diversos fatores sociais e históricos.
No Ocidente, dois grandes pólos culturais e potências mundiais em diferentes épocas, tem algo em comum: o tratamento dado à mulher.
Na Grécia Antiga, a mulher era vista como uma escrava, executava apenas trabalhos manuais e não possuía direito à liberdade. Sua função primordial era a reprodução da espécie humana. Vivia sob estreita vigilância, vendo o menor número de coisas possível, ouvindo o menor número de coisas possível e principalmente, fazendo o menor número de perguntas possível. Estando tão limitado o horizonte da mulher, era ela excluída do mundo do pensamento, do conhecimento, tão valorizado pela civilização grega.
Em Roma, seu código legal instituiu o "paterfamilias", a quem era atribuído todo o poder sobre mulher, filhos, escravos, a discriminação da mulher. O Direito aparece, nitidamente, como um instrumento de legitimação da inferioridade da posição social da mulher romana.
Povos considerados não tão desenvolvidos, sociedades tribais como as da Gália e da Germânia, no entanto, permitiam às mulheres um espaço de atuação semelhante ao dos homens. Faziam a guerra, participavam dos Conselhos Tribais, ocupavam-se da agricultura e do gado, construíam suas casas. Atuavam também como juízas, inclusive de homens.
Na América, entre os Iroqueses e Hurons não havia uma divisão estrita entre economia doméstica e economia social. Não havia o controle de um sexo sobre o outro na realização de tarefas ou nas tomadas de decisões.
Atualmente, pesquisas em diferentes países revelam que as mulheres tem mais escolaridade que os homens, dominam o mercado de trabalho em diversos setores, até nos considerados exclusivamente masculinos, são independentes, conhecem seus direitos e brigam por eles, e no Brasil, muitas são chefes de família.

Como dizia Virginia Woolf:  

"As mulheres serviram todos estes séculos como espelhos possuindo o poder de refletir a figura do homem duas vezes maior que seu tamanho natural".

sábado, 7 de maio de 2011

A Maldição de Eva



Era uma vez... um velhinho barbudo e bastante inteligente que, cansado da monotonia ao seu redor, teve a idéia de criar o "ser humano".
Assim, Deus criou Adão. Mas como nenhum ser humano é uma ilha, para viver isoladamente, resolveu dar-lhe uma "companhia". E da costela do solitário rapaz fez Eva, a primeira mulher do universo.
Tentada a comer do fruto proibido, Eva rende-se ao pecado e leva a humanidade a uma existência limitada e finita. Passa a ser considerada a responsável pela queda do homem e portanto, uma instigadora do mal. Deve-se a este fato a perseguição implacável ao corpo da mulher, tido como fonte de malefícios.
O período da Idade Média, auge da Igreja Católica, e que teve como marco o episódio conhecido por "caça às bruxas", verdadeiro genocídio realizado contra o sexo feminino na Europa e nas Américas, mostra-nos que a religião pode ser uma das maiores fontes geradoras de preconceitos e de incentivo à violência e à intolerância.
O que a história pouco nos revela é que a mulher, tida como bruxa, na verdade possui conhecimentos que lhe conferem espaços de atuação que escapam ao domínio masculino. E a medicina, neste momento, passa a instaurar-se como instituição masculina que detém o monopólio do saber e do poder de cura. Numa tentativa de estabelecer sua hegemonia, procura banir as práticas femininas do trato com ervas e do atendimento aos partos. Afinal, é a mulher, curandeira e parteira, secularmente encarregada da saúde da população, o principal concorrente a ser eliminado.
Interessante a observação de Jules Michelet em "Sobre as Feiticeiras": por ordem de seu bispo, a cidade de Genebra queimou, no ano 1515, em apenas 3 meses, nada menos que 500 mulheres; na Alemanha, o Bispado Bamberg queima de uma só vez 600, e o de Wurtzburgo, 900. As confissões eram extraídas sob tortura e mesmo contra qualquer evidência:

"O processo é simples. Começar por utilizar a tortura para as testemunhas... Extrair ao acusado, à custa de sofrimentos, qualquer confissão... Uma feiticeira confessa ter roubado do cemitério o corpo de uma criança... Desenterram-no e lá o encontram dentro do caixão. O Juiz porém resolve, contrariando o que os olhos lhe dizem, que se trata de uma aparência, um engano do Diabo... Ela é queimada".

Com o declínio do Tribunal da Inquisição, a Igreja lança agora a figura de Maria, retratada como símbolo de pureza, bondade, a grande mãe da Igreja. Este mesmo tipo de exaltação ao feminino pode ser encontrado no Talmude, livro religioso judaico, em que se faz a seguinte menção: "A mulher fez-se da costela do homem, não dos pés para ser espezinhada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual... debaixo do braço para ser protegida e perto do coração para ser amada".

Nos situando no século XXI, ainda são comuns casos de violação aos direitos humanos, principalmente no mundo islâmico, em que engatinham políticas de proteção à mulher. Quantas "Sakineh" são apedrejadas em praça pública sem direito à própria defesa? E qual o número de vítimas de maus-tratos dentro de seu próprio lar que continuam vivendo no silêncio? E aquelas meninas, tiradas da infância para a vida matrimonial?
É necessário uma separação entre Estado e Religião para que as bandeiras do combate à discriminação, violência e proteção aos direitos sexuais e reprodutivos sejam erguidas, estabelecidas e respeitadas.
Lembrando-se que os Direitos Humanos não são dados, mas construídos.



"A mulher faz-se da costela do homem, não dos pés para ser espezinhada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual... debaixo do braço para ser protegida e perto do coração para ser amada".